sábado, 22 de fevereiro de 2025

A Máscara Sagrada - Titus Buckhardt

 


A máscara é uma das formas mais difundidas e, sem dúvida, uma das mais antigas de arte sacra. Ela pode ser encontrada tanto nas civilizações mais elaboradas, como as da Índia e do Japão, quanto entre os chamados povos primitivos. A única exceção é a civilização ligada ao monoteísmo semita, embora, de fato, a máscara tenha sido preservada no folclore dos povos cristãos, bem como entre alguns povos muçulmanos , e isso, as vezes, em formas cujo simbolismo ainda é evidente. De fato, a tenacidade de sua sobrevivência diante de todo o pensamento moderno prova indiretamente sua origem sagrada. Para o cristianismo, assim como para o judaísmo e o islamismo, o uso ritual da máscara só pode ser uma forma de idolatria. Mas, de fato, a máscara está ligada não à idolatria, mas ao politeísmo, se entendermos por esse termo não o paganismo, mas uma visão espiritual do mundo que personifica espontaneamente as funções cósmicas sem ignorar a natureza única e infinita da Realidade Suprema. Essa visão implica uma concepção de “pessoa” que é um pouco diferente daquela que conhecemos do monoteísmo. Ela deriva da própria expressão persona. Sabemos que no teatro antigo, derivado do teatro sagrado dos Mistérios, essa palavra designava tanto a máscara quanto o papel. Ora, a máscara necessariamente expressa não uma individualidade, cuja representação dificilmente requer uma máscara, mas um tipo e, portanto, uma realidade atemporal, cósmica ou divina. A “pessoa” é, portanto, identificada com a função, e esta, por sua vez, é uma das múltiplas máscaras da Divindade, cuja natureza infinita permanece impessoal.

Há uma hierarquia de funções e, portanto, de “pessoas” divinas; mas sua própria multiplicidade significa que nenhuma delas pode ser considerada como a máscara única e total da Divindade infinita. A Divindade pode se revestir de uma máscara ou de outra para se revelar mais diretamente ao adorador; ou, alternativamente, ele pode escolher uma máscara específica como seu apoio e forma de adoração; ele sempre acabará encontrando nela toda a dignidade celestial, pois cada uma das qualidades universais contém essencialmente as outras. Isso explica o caráter aparentemente flutuante dos antigos panteões.

A essência das qualidades universais é uma só; é isso que o monoteísmo procura afirmar quando proclama a unicidade da “pessoa” divina. É como se ele fizesse uso da ideia de pessoa – a única ideia que um politeísmo que se esqueceu do Absoluto ainda pode compreender - para afirmar a unidade da Essência. Por outro lado, o monoteísmo teve de fazer uma distinção entre a pessoa e suas várias funções e qualidades, uma distinção que é de fato evidente, pois é semelhante àquela que existe entre o sujeito humano e suas faculdades. No entanto, continua sendo verdade que a divindade pessoal é sempre concebida por meio de uma ou outra de suas qualidades, que no plano da manifestação são distinguíveis e, às vezes, até mutuamente exclusivas. Elas nunca podem se revelar todas ao mesmo tempo e, quando coincidem na plenitude indiferenciada de suas qualidades comuns, Se o Deus pessoal e a Essência impessoal não são mais uma essência, não se pode mais falar verdadeiramente de uma pessoa, uma vez que essa essência está além de toda distinção e, portanto, além da pessoa. Mas a distinção entre o Deus pessoal e a Essência impessoal pertence ao domínio do esoterismo e, portanto, retorna à metafísica que sustenta o politeísmo tradicional. Seja como for, ao negá-la em um contexto de multiplicidade de pessoas, o monoteísmo também teve de rejeitar o uso ritual da máscara.

Mas, voltando à máscara sagrada como tal: ela é, acima de tudo, o meio de uma teofania; a individualidade de quem a usa não é simplesmente apagada pelo símbolo assumido, ela se funde a ele na medida em que se torna o instrumento de uma “presença” sobre-humana. Pois o uso ritual da máscara vai muito além da mera figuração: é como se a máscara, ao ocultar o rosto ou o ego externo de quem a usa, ao mesmo tempo revelasse uma possibilidade latente dentro dele. O homem realmente se torna o símbolo que ele colocou, o que pressupõe uma certa plasticidade da alma e uma influência espiritual atualizada pela forma da máscara. Além disso, uma máscara sagrada é geralmente considerada um ser real; ela é tratada como se estivesse viva e não é colocada até que certos ritos de purificação tenham sido realizados. 

Além disso, o homem se identifica espontaneamente com o papel que desempenha, que lhe foi imposto por sua origem, seu destino e seu ambiente social. Esse papel é uma máscara - na maioria das vezes uma máscara falsa em um mundo tão artificial como o nosso e, de qualquer forma, uma máscara que limita em vez de libertar. A máscara sagrada, ao contrário, juntamente com tudo o que seu uso implica no que diz respeito a gestos e palavras, subitamente oferece à “autoconsciência” de alguém um molde muito mais amplo e, assim, a possibilidade de perceber a “liquidez” dessa consciência e sua capacidade de adotar todas as formas sem ser nenhuma delas. Aqui devemos fazer uma observação: por “máscara” entendemos, acima de tudo, um rosto artificial que cobre o rosto de quem o usa. Mas em muitos casos, por exemplo, no teatro chinês ou entre os índios norte-americanos, uma simples pintura do rosto tem a mesma função e a mesma eficácia. Normalmente, a máscara é complementada pela vestimenta ou ornamentação de todo o corpo. Além disso, o uso ritual da máscara é, na maioria das vezes, acompanhado de dança sagrada, cujos gestos simbólicos e ritmo têm o mesmo propósito da máscara, ou seja, a atualização de uma presença sobre-humana. A máscara sagrada nem sempre sugere uma presença angelical ou divina: ela também pode ser o suporte de uma presença “asurica” ou demoníaca.

A presença do mal, sem que isso implique necessariamente em qualquer desvio, pois essa presença, maléfica em si mesma, pode ser domada por uma influência superior e capturada com vistas à expiação, como em certos ritos lamaístas. Também digno de menção, como um exemplo bem conhecido, é o combate entre o Barong e a feiticeira Rangda no teatro sagrado de Bali: o Barong, que tem a forma de um leão fantástico e é comumente considerado como o gênio protetor da aldeia, é na realidade o leão solar, símbolo da luz divina, como é expresso por seus ornamentos dourados; ele tem de enfrentar a feiticeira Rangda, personificação das forças tenebrosas. Ambas as máscaras são suportes para influências sutis que são comunicadas a todos os que participam do drama; entre os dois, desenvolve-se um verdadeiro combate. Em um determinado momento, jovens em transe se lançam sobre a feiticeira Rangda para apunhalá-la, mas o poder mágico da máscara os obriga a virar seus kris contra si mesmos; finalmente, o Barong repele a feiticeira Rangda. Na realidade, ela é uma forma da deusa Kali, do poder divino previsto em sua função destrutiva e transformadora, e é em virtude dessa Natureza implicitamente divina da máscara que seu portador pode assumi-la impunemente.

A máscara grotesca existe em muitos níveis diferentes. Em geral, ela possui um poder “apotropaico”, pois, ao revelar a verdadeira natureza de certas influências malignas, ela as põe em fuga. A máscara “objetiviza” tendências ou forças cujo perigo é aumentado na medida em que permanecem vagas e inconscientes; ela revela a elas sua própria face feia e desprezível a fim de desarmá-las. Seu efeito é, portanto, psicológico, mas vai muito além do plano da psicologia comum, uma vez que a própria forma da máscara e sua eficácia quase imaginária dependem de uma ciência das tendências cósmicas.

A máscara “apotropeica” tem sido frequentemente transposta para a decoração escultural dos templos. Quando seu caráter grotesco e aterrorizante é concebido como um aspecto do poder destrutivo divino, ela é, por sua vez, uma máscara divina. O Gorgoneion dos templos gregos arcaicos deve, sem dúvida, ser interpretado dessa forma, e esse também é o significado do Kâla-mukha, a máscara composta que adorna o ponto mais alto dos nichos na arquitetura hindu.

 A máscara sagrada necessariamente empresta suas formas da natureza, mas nunca é “naturalista”, pois seu objetivo é sugerir um tipo cósmico atemporal. Ela atinge esse objetivo enfatizando certas características essenciais ou combinando formas diferentes, mas análogas, da natureza, por exemplo, formas humanas e animais, ou formas animais e geométricas. Sua linguagem formal é muito menos frequentemente dirigida à sensibilidade emotiva do que se poderia pensar: as máscaras rituais dos esquimós, por exemplo, ou dos índios da costa noroeste da América, ou de certas tribos africanas, são inteligíveis apenas para aqueles que estão familiarizados com todas as suas referências simbólicas. O mesmo pode ser dito sobre as máscaras do teatro sagrado hindu: a máscara de Krishna, como é representada no sul da Índia, é como um conjunto de metáforas.

 No que diz respeito às máscaras de forma animal, pode-se dizer o seguinte: o animal é, em si mesmo, uma máscara de Deus; o que nos olha de sua face é menos o indivíduo do que o gênio da espécie, o tipo cósmico, que corresponde a uma função divina. Pode-se dizer também que, no animal, os diferentes poderes ou elementos da natureza assumem a forma de uma máscara: a água é “personificada” no peixe, o ar no pássaro; no búfalo ou no bisão, a terra manifesta seu aspecto generoso e fértil , e no urso mostra sua face mais sombria. Ora, esses poderes da natureza são funções divinas. 

No entanto, as danças com máscaras de formas animais podem ter um propósito prático, ou seja, conciliar o gênio da espécie caçada. Essa é uma ação mágica, mas que pode muito bem ser integrada a uma visão espiritual das coisas. Como as ligações sutis entre o homem e o seu ambiente natural existem dois fatores, e pode-se fazer uso deles da mesma forma que se faz uso das condições físicas. O que é importante do ponto de vista espiritual é a consciência da verdadeira hierarquia das coisas. Certamente o uso ritual da máscara pode se degenerar em magia pura e simples, mas isso acontece com muito menos frequência do que geralmente se supõe.

Para os Bantu, assim como para outros povos africanos, a máscara sagrada representa o totem animal que é considerado o ancestral da tribo. Obviamente, não se trata aqui do ancestral natural, mas do tipo atemporal do qual os ancestrais receberam sua autoridade espiritual. O animal da máscara é, portanto, um animal supraterrestre, e isso é indicado em sua forma meio animal, meio geométrica. Da mesma forma, as máscaras antropomórficas de “ancestrais” não evocam meramente um indivíduo; elas representam o tipo ou a função cósmica da qual o ancestral era a manifestação humana: no caso de povos em que a filiação espiritual coincide na prática com uma descendência ancestral, o ancestral que está na origem dessa descendência assume necessariamente o papel de herói solar, meio humano, meio divino.

Em um certo sentido, o sol é a máscara divina por excelência. Pois ele é como uma máscara diante da luz divina, que cegaria e consumiria os seres terrestres se fosse revelada. Ora, o leão é um animal solar, e a máscara em forma de cabeça de leão é a imagem do sol. Essa mesma máscara também pode ser encontrada em fontes, e o jato de água que jorra dela simboliza a vida que vem do sol. 

O costume de cobrir o rosto de um homem morto com uma máscara não era exclusivo dos antigos egípcios; e o significado primordial desse costume deve ter sido o mesmo em todos os lugares: por suas formas simbólicas - às vezes parecidas com o sol - essa máscara representava o protótipo espiritual no qual o homem morto deveria se reintegrar. A máscara que cobre o rosto das múmias egípcias é geralmente considerada um retrato estilizado do homem morto, mas isso é apenas parcialmente verdade, embora essa máscara tenha se tornado, de fato, no final do mundo egípcio antigo e sob a influência da arte greco-romana, um verdadeiro retrato funerário. Antes dessa decadência, era uma máscara que mostrava o homem morto não como ele era, mas como ele deveria se tornar. Era um rosto humano que, de certa forma, se aproximava da forma imutável e luminosa das estrelas. Agora, essa máscara desempenhava um papel específico na evolução póstuma da alma: de acordo com a doutrina egípcia, a modalidade sutil inferior do homem, que os hebreus chamam de “sopro dos restos ” e que normalmente se dissolve após a morte, pode ser mantido e fixado pela forma sagrada da múmia. 

Essa forma ou essa máscara desempenha, em relação a esse conjunto de forças sutis difusas e centrífugas, o papel de um princípio formativo: ela sublima esse “sopro” e o fixa, fazendo dele uma espécie de elo entre este mundo e a alma do homem morto, uma ponte por meio da qual os encantamentos e as oferendas dos sobreviventes podem alcançar a alma e por meio da qual sua bênção pode alcançá-los. Essa fixação do “sopro dos restos mortais” é, além disso, produzida espontaneamente na morte de um santo, e é isso que faz de uma relíquia o que ela é: em um santo, a modalidade psíquica inferior ou a consciência corporal já havia sido transformada durante sua vida; ela se tornou o veículo de uma presença espiritual com a qual imbuirá as relíquias e o túmulo do personagem sagrado. 

É provável que, no início, os egípcios consagrassem apenas as múmias de homens de alta dignidade espiritual, pois há um perigo em manter a modalidade psicofísica de qualquer pessoa. Enquanto a estrutura tradicional permanecesse intacta, esse perigo poderia ser neutralizado; o perigo surge somente quando homens de uma civilização totalmente diferente, e completamente ignorantes das realidades sutis, rompem os selos das tumbas.

A estilização típica do rosto humano também pode ser encontrada nas máscaras do Nô, o teatro ritual do Japão, onde a intenção é tanto psicológica quanto espiritual. Cada tipo de máscara manifesta uma determinada tendência da alma; ela expõe essa tendência, mostrando o que há de fatal ou generoso nela. Assim, o jogo das máscaras é o jogo dos gunas, as tendências cósmicas, dentro da alma.

Em Nð, a diferenciação de tipos é obtida por métodos extremamente sutis; quanto mais a expressão de uma máscara estiver latente e imóvel, mais ela estará viva em seu jogo: cada gesto do ator afará falar; cada movimento, fazendo com que a luz deslize sobre suas características, revelará um novo aspecto da máscara; é como uma visão súbita de uma profundidade ou de um abismo da alma.


sábado, 15 de fevereiro de 2025

Os Princípios - Antonin Artaud

 

Os princípios só valem para o espírito que pensa, e quando pensa; fora do espírito que pensa, um princípio reduz-se a nada. Não se pode pensar o fogo, a água, o céu; reconhecêmo-los e nomeamo-los porque existem; e sob a água, o fogo, a terra ou o céu, sob o mercúrio, o enxôfre e o sal, há matérias ainda mais subtis, que o espírito não pode nomear porque não aprendeu a conhecê-las, mas que algo mais subtil do que o espírito, mais profundo que tudo o que nos está na cabeça, pressente, e poderá reconhecer quando aprender a nomear.  


Pois, se os princípios valem para o espírito, as coisas valem para as coisas; e não há paragem na subtileza das coisas, como não há obstáculo na subtileza do espírito. No topo das essências fixadas, correspondente às inumeráveis modalidades da matéria, existe aquilo que, na subtileza das essências, na violência do fogo ígneo corresponde aos princípios geradores das coisas, aquilo que o espírito que pensa pode denominar princípios, os quais porém correspondem, em relação à totalidade fervente das coisas, a graus conscientes da Vontade na Energia.  


Não existem princípios da matéria subtil ou do enxôfre ou do sal, mas, para além do sal, do mercúrio ou do enxôfre, matérias ainda mais subtis que, no último extremo da vibração orgânica, dão conta da diversidade do espírito através das coisas; e a quem pede lhe sejam apresentadas as coisas, só os números respondem dando conta das suas existências separadas.  


Decerto que não sou pelo dualismo Espírito-Matéria; mas entre a tese que dá tudo ao espírito e a que dá tudo à matéria, digo que não há conciliação possível enquanto estivermos num mundo onde o espírito só pode ser alguma coisa quando consente em materializar-se. A matéria só existe pelo espírito, e o espírito só existe na matéria. Mas no fim de contas é o espírito que tem a supremacia.  


E a isso de saber-se se há princípios que podem explicar as coisas, parece-me agora fácil responder que não há princípios mas sim coisas; assim como há coisas sólidas, e nos sólidos rareza; e agrupamentos de matéria única que dão a ideia de perfeito – e seres para darem contas do Ser que se desrolha da Unidade.  


E tudo isso só é válido para este mundo que incha e adquire aspereza, e para o olho do espírito que lançam no meio das coisas – e quando o lançam. E é demasiado fácil asseverar que, se no espírito não há nada, tudo o que existe é função do espírito. E as coisas são funções do espírito. Têm uma unidade passageira e funcional; válida só para o gerado.  


Nada existe senão como função, e todas as funções levam a só uma; – e o fígado que faz a pele amarela, o cérebro que se sifiliza, o intestino que expulsa a porcaria, o olhar que lança fogo e transforma os lugares do fogo limitam-se, para mim, se expiro, ao pesar de viver e à ânsia de acabar. 

sábado, 8 de fevereiro de 2025

O Desporto - Muammar Gaddafi

 


O desporto pode ser praticado em privado como a oração que o crente reza sozinho no interior do seu quarto ou em público, se for praticado coletivamente ao ar livre, como a oração que é rezada pelos crentes nos locais de culto. o primeiro tipo de desporto diz apenas respeito ao indivíduo que o pratica, mas já o segundo diz respeito a todas as pessoas. Esse segundo tipo de desporto deve ser praticado por todos, não devendo ser permitido a ninguém praticá-lo em nome da coletividade. Tal como não seria correto permitir às pessoas a entrada nos templos para assistir às orações dos crentes, também é absurda a presença de pessoas nos estádios para verem jogar um pequeno grupo. Num estádio deveriam ser elas próprias a jogar.

Praticar um desporto é como comer ou rezar e a sua sensação assemelha-se à sensação de calor ou frio. É estúpido pensar num grupo de pessoas desejosas de entrar num restaurante para ver alguém comer. Igualmente estúpido seria uma pessoa aquecer-se ou refrescar-se por pessoa intermédia de outra. Neste sentido é

ilógico que a sociedade permita que um indivíduo ou uma equipe monopolize os desportos, cujas despesas são pagas pelo povo, para beneficio apenas dos que o praticam. O povo não deve democraticamente permitir que nenhuma pessoa ou grupo seja ele um partido, uma classe, tribo ou parlamento o substitua em decisões sobre a definição do seu destino e das suas necessidades.

O desporto privado diz apenas respeito àquele que o pratica sozinho e à sua custa. O desporto pública é uma necessidade coletiva em cuja prática o povo não deve aceitar ser representado, ilógico que a sociedade permita que um indivíduo ou uma equipe monopolize os desportos, cujas despesas são pagas pelo povo, para beneficio apenas dos que o praticam. O povo não deve democraticamente permitir que nenhuma pessoa ou grupo seja ele um partido, uma classe, tribo ou parlamento o substitua em decisões sobre a definição do seu destino e das suas necessidades.

O desporto privado diz apenas respeito àquele que o pratica sozinho e à sua custa. O desporto pública é uma necessidade coletiva em cuja prática o povo não deve aceitar ser representado, nem fisica nem democraticamente por ninguém. Fisicamente, o representante não pode transmitir ao representado a maneira como o seu corpo e a sua mente beneficiam do desporto. Democraticamente nenhum individuo ou grupo têm o direito de monopolizar o desporto, poder, riqueza ou armas para si próprio. os clubes desportivos constituem os meios organizativos básicos do desporto tradicional no mundo atual. São eles que se apropriam das facilidades públicas postas à disposição pelo Estado para o desporto.

Essas instituições são apenas instrumentos sociais monopolistas semelhantes aos instrumentos políticos ditatoriais que monopolizam a autoridade, aos instrumentos econômicos que monopolizam a riqueza e aos

instrumentos militares tradicionais que monopolizam as armas. Tal como a era das massas vai fazer acabar com os instrumentos que monopolizam o poder, a riqueza e as armas, ela vai inevitavelmente destruir o monopólio da atividade social que é o desporto, equitação e outros. As massas que se empenham em votar instrumentos militares tradicionais que monopolizam as armas. Tal como a era das massas vai fazer acabar com os instrumentos que monopolizam o poder, a riqueza e as armas, ela vai inevitavelmente destruir o monopólio da atividade social que é o desporto, equitação e outros. As massas que se empenham em votar num candidato que as represente para decidir o seu destino atuam na assunção impossível de que ele as representará e corporizará a sua dignidade, soberania e pontos de vista. Contudo, essas massas, privadas da sua vontade e dignidade, ficam apenas reduzidas a meros espectadores, vendo outra pessoa fazer o que naturalmente deveriam ser elas próprias a realizar.

O mesmo se aplica às multidões que não praticam o desporto devido à sua ignorância. Elas são enganadas pelos instrumentos monopolistas, destinados a diverti-los e estupidificá-los, levando-as a aplaudir em vez de praticar. O desporto, enquanto atividade social, deve ser para as massas tal como o poder, a riqueza e as armas que devem estar nas mãos do povo.

O desporto público é para as massas. Ele constitui um direito de todo o povo para a sua saúde e recreio. É pura estupidez deixar os seus beneficios apenas para alguns indivíduos e grupos que os monopolizam à custa das massas

que para isso lhes dão facilidades e pagam as despesas. Os milhares de pessoas que enchem os estádios para ver, rir e aplaudir são idiotas que não souberam praticar essa atividade elas próprias. Acumulam-se nas bancadas dos dos estádios, praticando a letargia e aplaudindo os heróis que lhes roubam a iniciativa, dominam o campo e controlam o desporto, explorando as possibilidades que as massas nesse sentido lhes fornecem. Inicialmente os locais destinados ao público foram criados para demarcar a zona destinada às massas, da zona destinada aos jogos, i.é., para evitar que as massas invadam o centro dos estádios. Os estádios ficarão vazios e deixarão de existir quando as massas tomarem consciência de que o desporto é uma atividade pública que deve ser praticada e não aplaudida. A situação inversa, uma pequena minoria apática e sem recursos a olhar e a aplaudir, seria mais razoável.

A tribuna desaparecerá quando não houver ninguém para a ocupar. Aqueles que são incapazes de desempenhar os seus papéis históricos na vida, que são ignorantes sobre os acontecimentos da História, que não sabem imaginar o futuro, que não são suficientemente integros e respeitáveis nas suas vidas, são quem enche os cinemas e os teatros para observar os acontecimentos da vida e aprender o seu processo. Assemelham-se aos alunos que ocupam as secretárias de uma escola porque são não só incultos, como iletrados.

As pessoas que dirigem elas próprias as suas vidas não precisam de observar o comportamento dos atores nos palcos ou nos cinemas. Do mesmo modo que os cavaleiros que se agüentam bem no dorso dos seus cavalos não vão se sentar nas bancadas dos hipódromos. Se for dado um cavalo a cada pessoa não ficará ninguém a ver e aplaudir. Os espectadores sentados são os que são incapazes de ter esse tipo de atividade porque não são cavaleiros.

Os povos beduínos não manifestam interesse pelos teatros e outros espetáculos porque são homens inteiros e integros. Na medida em que criaram uma vida harmoniosa e integrada ridicularizam a representação. As sociedades beduínas também não observam. Executam, jogam e participam em cerimônias alegres, que organizam, porque naturalmente reconhecem a necessidade dessas atividades. Os diferentes tipos de boxe e de luta são a prova de que a espécie humana ainda não se libertou do seu comportamento selvagem. São práticas que terminarão inevitavelmente quando o homem subir ao topo da escala da civilização. Os sacrificios humanos e os duelos de pistola também foram práticas habituais em diferentes

estágios da evolução humana, que acabaram por desaparecer.

O homem, atualmente, ri-se de si próprio e lamenta essas práticas. Também o boxe e a luta desaparecerão daqui a dezenas ou centenas de anos. Quanto mais civilizadas e sofisticadas forem as pessoas, mais capazes serão de recusar esse tipo de exibições e espetáculos.


sábado, 1 de fevereiro de 2025

A Mentalidade Brasileira - Plínio Salgado

 


Sem ser um povo de contemplativos, somos uma nação de imaginativos. E essa mesma imaginação que sabe criar tão poderosamente, sabe aniquilar e pulverizar com a presteza dos relâmpagos. De sorte que o brasileiro oscila continuamente entre arrebatamentos e depressões, períodos de exaltação heróica, seguidos de marmóreas apatias e céticos desânimos.

Os grandes estados de espírito nacionais, as paixões partidárias, os sentimentos de ódio e vingança, de amor e de entusiasmo, passam sobre nós como as ondas de frio ou calor, produzindo seus efeitos com rapidez assombrosa, mas desaparecendo tão rapidamente que não deixam vestígios.

Essa feição generalizada da mentalidade brasileira é a vaga por onde perpassam as correntes de ideias, sem que nenhuma exerça uma predominância absoluta. Em nenhum país do mundo é mais fácil a introdução de qualquer ordem de ideias. A novidade empolga nos primeiros instantes e parece que a vitória foi a mais completa possível. Basta, entretanto, esperar um pouco, para que a desilusão seja total.

A tendência da mentalidade brasileira, pois, é para não assumir compromissos definitivos. Ora, os compromissos transitórios só se possibilitam nos domínios dos interesses mais materiais ou das razões sentimentais, motivo por que o brasileiro, no plano mental, apresenta-nos a paisagem curiosa de uma heterogeneidade inconciliável.

Constituirá isto um defeito ou uma qualidade? Seja lá como for, ao estudioso das questões brasileiras não pode passar sem registro muito especial a circunstância de fracassarem aqui todos os programas, todas as ideologias, tudo o que provenha dos planos da inteligência, do raciocínio, da razão. Queixam-se os comunistas e queixam-se os católicos, queixam-se os socialistas e queixam-se os liberais-democráticos, queixam-se todos os que desejariam sistematizar os movimentos sociais e políticos do Brasil.

Temos vivido num empirismo, numa improvisação diária, sem objetivo nem finalidade.

O Brasil é a instabilidade, a dúvida, a confusão, se o apreciamos sob o aspecto mental; como é a complexidade, a simultaneidade de movimentos, se o consideramos do ponto de vista econômico, étnico, e principalmente partidário.

É, sobretudo, o país das interinidades sucessivas.

E, entretanto, há, inegavelmente, uma unidade brasileira. Que cumpre pesquisar, cujos fatores cumpre revelar, cuja força é necessário captar e dirigir. Não a procuremos nos domínios da inteligência, que não pôde, até hoje, ser disciplinada. Ela está antes no sentimento nacional.

Os homens de pensamento e de ação que desejarem realizar aqui qualquer sistema, não basta que conheçam as teorias, as leis desse sistema, ou que se conservem nas grandes ideias gerais; eles necessitam penetrar a fundo este povo para procurar, no terreno movediço da opinião e do próprio caráter brasileiros, os pontos de apoio sem os quais se torna impossível qualquer obra duradoura.

O problema brasileiro é muito mais difícil do que os da Rússia, da Itália e da Alemanha. Os modelos de Lênin, de Mussolini e de Hitler, suas estratégias, seus processos não valem nada no caso do Brasil.

A geração nova precisa estar convencida de que o 'homem' que ela deverá engendrar não poderá ser uma só coisa: um caudilho, um cabo eleitoral, um santo, um cientista, um filósofo, um agitador, mas um pouco de tudo isso.

Em 1923, escrevi: 'Nós somos o Curupira das mil feições. Somos crentes e incrédulos, valentes e medrosos, inteligentes e bobos, perversos e bondosos — tal e qual o demônio das florestas… O Curupira ou Caapora é a própria alma nacional, na sua inquietude permanente, renovando-se cada noite'.

sábado, 25 de janeiro de 2025

Ordem para os destacamentos russos no território da Sibéria Soviética, Ordem de No 15 dado em Urga, 21 de maio de 1921.

 


Eu, o Tenente General Barão von Ungern-Sternberg, comandando a Divisão de Cavalaria Asiática, trago o seguinte ao conhecimento de todas as unidades russas prontas para lutar contra os Vermelhos bolcheviques na Rússia. A Rússia foi formada gradualmente a partir de vários elementos, poucos em número, que foram unidos pela unidade na fé, pela relação racial e, mais tarde, pela semelhança no governo. Enquanto ela não foi tocada pelos princípios do pensamento revolucionário, que são inaplicáveis a ela devido à sua composição e caráter, a Rússia permaneceu um império poderoso e indissolúvel.

A tempestade revolucionária no dente minou profundamente o mecanismo do Estado ao separar os intelectuais da corrente principal de ideias e aspirações nacionais. Liderado pela intelectualidade, tanto político-social quanto liberal-burocrática, o povo - embora no fundo de seus corações permanecesse leal ao Czar, à Fé e à Pátria começou a se desviar do caminho estreito traçado por todo o desenvolvimento do pensamento nacional e vida... o pensamento revolucionário lisonjeou a vaidade da multidão, mas não ensinou ao povo os primeiros princípios de liberdade ou construção... a multidão é um bárbaro e age como tal em todas as ocasiões. Assim que a multidão garante a liberdade, rapidamente se transforma em anarquia, o que é o cúmulo da barbárie...

Primeiro o ano de 1905, e depois 1916-1917, testemunhou a terrível e criminosa colheita da semente lançada pelos revolucionários... Três meses de licença revolucionária bastaram para destruir o que muitos séculos haviam conquistado... O povo sente a necessidade de um homem cujo nome é familiar para eles, a quem podem amar e respeitar. Só existe um tal homem; o homem que é por direito senhor da terra russa, O IMPERADOR DE TODAS AS RUSSIAS, MICHAEL ALEXANDEROVICH... No decorrer da luta contra os criminosos que destruíram e profanaram a Rússia, deve-se lembrar que, por conta da depravação total da moral e da licenciosidade absoluta, intelectual e física, que hoje prevalece na Rússia, não é mais possível manter nosso antigo padrão de valores. Verdade e misericórdia não são mais admissiveis. Doravante, só pode haver "verdade e dureza impiedosa". O mal que caiu sobre a terra, com o objetivo de destruir o principio divino na alma humana, deve ser extirpado raiz e ramo. A fúria contra Ocios chefes da revolução, seus devotados seguidores, não deve conhecer fronteiras.

O Santo Profeta Daniel predisse o tempo cruel em que o corrupto e o impuro seriam derrotados e os dias de paz viriam: E naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe que representa os filhos do teu povo: e ali será um tempo de angústia, como nunca houve, desde que ainda existia uma nação, e naquele tempo o teu povo será libertado, todo aquele que for achado escrito no livro. Muitos serão purificados, alvejados e provados; mas os impios procederão impiamente, e nenhum dos impios entenderá; mas os sábios entenderão. E daquele tempo em que o sacrificio diário será tirado, e a abominação que desoladora será levantada, haverá mil duzentos e noventa dias. Bem-aventurado aquele que esperou e chegou aos mil trezentos e trinta e cinco dias.

sábado, 18 de janeiro de 2025

O Simbolismo da Alquimia Chinesa - Mircea Eliade

 


Tanto na China quanto em outros lugares, a alquimia é definida por meio de uma dupla crença: 1) na transmutação dos metais em ouro; 2) no valor ''soteriológico'' das operações efetuadas com o objetivo de alcançar esse resultado. As referências precisas a essas duas crenças são atestadas na China desde o século IV a.C. Admite-se em geral que Tsu Yen, um contemporâneo de Mêncio, é o ''fundador'' da alquimia. No século II a.C., a relação entre o preparo do ouro alquímico e a obtenção da longevidade-imortalidade é claramente reconhecida por Liu An e por outros autores. 

A alquimia chinesa constitui-se, como disciplina autônoma, utilizando: 1)os princípios cosmológicos tradicionais; 2) os mitos relacionados com o elixir da imortalidade e os santos imortais; 3) as técnicas que visam, ao mesmo tempo, ao prolongamento da vida, à beatitude e à espontaneidade espiritual. Estes três elementos -- princípios, mitos e técnicas -- pertenciam ao legado cultural da proto-história, e seria um erro acreditar que a data dos primeiros documentos que os atestam nos informem também a sua idade. [...] A busca do elixir estava, portanto, associada à procura das ilhas remotas e misteriosas onde viviam os ''imortais'': encontrar os ''imortais'' era transcender a condição humana e participar de uma existência atemporal e beatífica. 

A pesquisa do ouro envolvia também uma investigação de natureza espiritual. O ouro tinha um caráter imperial: achava-se no ''centro da Terra'' e tinha relações místicas com o chüe (rosalgar ou sulfeto), o mercúrio amarelo e a vida futura (as ''fontes amarelas''). É essa a maneira como é apresentado num texto de ~122 a.C., o Huai-nan-tzu, onde encontramos atestada também a crença numa metamorfose precipitada dos metais. Como o seu correspondente ocidental, o alquimista chinês auxilia a obra da natureza apressando o ritmo do tempo. [...] 

A homologação tradicional entre o macrocosmo e o microcosmo relacionava os cinco elementos cosmológicos (água, fogo, madeira, ar, terra) aos órgãos do corpo humano: o coração, com a essência do fogo; o fígado, com a essência da madeira; os pulmões, com a essência do ar; os rins, com a essência da água; o estômago, com a essência da terra. O microcosmo, que é o corpo humano, achava-se, por sua vez, interpretado em termos alquímicos: ''o fogo do coração é vermelho como o cinábrio, e a água dos rins é negra como o chumbo'' etc. Por conseguinte, o homem possui, no seu próprio corpo, todos os elementos que constituem o cosmo e todas as forças vitais que asseguram a renovação periódica. Trata-se apenas de reforçar certas essências. Daí a importância do cinábrio, menos pela cor vermelha (cor do sangue, princípio vital) que pelo fato de que, exposto ao fogo, produz o mercúrio. Ele encerra, portanto, o mistério da regeneração pela morte (pois a combustão simboliza a morte). Disso resulta que o cinábrio pode assegurar a regeneração perpétua do corpo humano e, consequentemente, a imortalidade. [...] 

No entanto, o cinábrio também pode ser produzido no interior do corpo humano, através sobretudo da destilação do esperma nos campos do cinábrio. Esses campos de cinábrio, região secreta do cérebro munida de um ''quarto semelhante a uma gruta'', são também conhecidos como K'uen-luen. Ora, K'uen-luen é uma montanha fabulosa do mar do Ocidente, morada dos imortais. ''Para aí penetrar por meio da meditação mística, entra-se num estado 'caótica' (huen) semelhante ao estado primordial, paradisíaco, 'inconsciente' do mundo incriado''. 

Convém não esquecermos sobretudo de dois elementos: 1) a identificação da montanha mítica K'uen-luen com as regiões secretas do cérebro e do ventre; 2) o papel atribuído ao estado ''caótico'', que, uma vez alcançado pela meditação, permite o ingresso nos campos de cinábrio, tornando assim possível a preparação alquímica do embrião da imortalidade. A montanha do mar do Ocidente, morada dos imortais, é uma imagem tradicional e muito antiga do ''mundo em ponto pequeno'', de um Universo em miniatura.

A montanha K'uen-luen tem dois andares, formados por um cone reto sobre o qual se ergue um cone invertido. Em outras palavras, tem a forma de uma cabaça, exatamente como o forno do alquimista e a região secreta do cérebro. Quanto ao estado ''caótico'' obtido pela meditação e indispensável à operação alquímica, é comparável à matéria prima, a massa confusa da alquimia ocidental. A matéria-prima não deve ser entendida somente com uma estrutura primordial da substância, mas ainda como uma experiência interior do alquimista. A redução da matéria à sua condição primeira de absoluta indiferenciação corresponde, no plano da experiência interior, à regressão ao estágio pré-natal, embrionário. Ora, como vimos, o tema do rejuvenescimento e da longevidade pelo regressus ad uterum constitui um dos primeiros objetivos do taoísmo. O método mais frequentemente usado é a ''respiração embrionária'' (t'ai-si), mas o alquimista consegue ainda retornar ao estágio embrionário através da fusão dos ingredientes no seu forno. 

A partir de certa época, a alquimia externa (wai-tan) passa a ser considerada ''exotérica'' e contrapõe-se à alquimia interna de tipo ioga (nei-tan), que, só ela, é declarada ''esotérica''. O nei-tan torna-se esotérico porque o elixir é preparado no próprio corpo do alquimista, por métodos de ''fisiologia sutil'', e sem a ajuda de substâncias vegetais ou minerais. Os metais ''puros'' (ou suas ''almas'') são identificados com as diversas partes do corpo, e os processos alquímicos, em vez de serem realizados no laboratório, desenvolvem-se no corpo e na consciência do iniciado. O corpo torna-se o cadinho onde o ''puro'' mercúrio e o ''puro'' chumbo, bem como o semen virile e o sopro, circulam e se fundem. 

Ao se combinarem, as forças yang e yin geram o ''embrião misterioso'' (o ''elixir da vida'', a ''flor amarela''), o ser imortal que acabará por evadir-se do corpo através do occipúcio e subir ao Céu. O nei-tan pode ser considerado uma técnica análoga à ''respiração embrionária'', com a diferença de que os processos são descritos na terminologia da alquimia esotérica. A respiração é identificada com o ato sexual e a obra alquímica -- e a mulher é assimilada ao cadinho.

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Guerra do Paraguai: Uma Derrota Brasileira

 


Comumente vemos nos círculos patrióticos uma exaltação à participação do Brasil na Guerra do Paraguai ou, como é conhecida nas terras guaranis, Guerra da Tríplice Aliança. Mas, longe do ufanismo irrefletido, insuflado por historiografias positivistas que fazem uma análise recortada da realidade dos fatos, podemos observar que a Guerra Paraguaia foi um erro estratégico para a liderança do Brasil enquanto polo de poder na América Ibérica.

Para começarmos nossa explicação, passaremos brevemente por uma contextualização do cenário do Rio da Prata anterior aos acontecimentos da guerra, para compreendermos as causas que levaram à mesma.

• Portugal e Espanha



Como bem sabemos ou deveríamos saber, após a união de Portugal com a Espanha em 1580, o Tratado de Tordesilhas tornou-se uma abstração, resultando na expansão dos territórios 'brasileiros' dentro daquilo que era considerado território espanhol. Esse é um ponto chave para entendermos a questão do Prata.

A Capitânia de São Vicente, anterior ao descobrimento de grande quantidade de ouro em seus territórios, era um território quase abandonado pela coroa portuguesa, como bem ressalta Oliveira Viana em seu célebre livro Populações Meridionais do Brasil, o que possibilitou que grupos de homens se organizassem nas chamadas 'Bandeiras' para a busca de recursos dentro da América.


A expansão desenfreada impulsionada pelas bandeiras gerou conflitos na América. Os bandeirantes, vistos pelos jesuítas como mestiços selváticos "sem fé", expandiam-se território americano adentro, consolidando sua relativa autonomia na "República de São Paulo".

Já no Prata, os jesuítas, dentro do império espanhol, haviam se organizado na "República Guaratínica" ou "Misiones". Tal República, igualmente a São Paulo, possuía relativa autonomia em relação à própria metrópole e buscava expandir-se dentro dos territórios americanos. O que gerou uma série de conflitos com os paulistas, culminando na perda de vários territórios no que hoje é considerado o Sul do Brasil, mas também impedindo os bandeirantes de se aprofundarem nas terras do Cone Sul.


As Guerras Guaratínicas, como são conhecidas atualmente, foram o início do estranhamento entre os hispano-americanos e brasileiros no Cone Sul do nosso continente. Tal desconfiança de um sob o outro permaneceria insistentemente.

• Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai recém-independentes


A questão do Uruguai é complexa. Historicamente, o Uruguai foi parte do Vice-Reinado do Prata e colonizado majoritariamente por espanhóis. Chamado de "Banda Oriental" por eles.

Após o caudilho austral José Gervásio de Artigas declarar independência da "Liga dos Povos Livres", o Império Português, à época com seu Rei Dom João exilado no Brasil por conta das guerras napoleônicas, sentindo-se ameaçado pelo projeto de independência artiguista e instigado por planos expansionistas pessoais, invadiu os territórios da Liga dos Povos Livres e os anexou ao império. Esse foi outro fato que reacendeu a desconfiança em relação aos luso-americanos naquela região.


Com a independência brasileira, os portenhos na Argentina acreditavam que haveria uma ruptura da postura brasileira com as políticas portuguesas na América espanhola e logo solicitaram ao Brasil que lhes devolvesse o território ocupado pelos portugueses, o que não lhes foi concedido, resultando na Guerra da Cisplatina e na independência do Uruguai.



A luta contra os brasileiros insuflou nas populações uruguaias um sentimento de contraste aos 'bayanos', como chamavam os brasileiros.

E o impasse na guerra gerou uma rivalidade entre Brasil e Argentina, com ambos tentando influenciar o Prata para impor seus próprios interesses.

A Argentina, ávida por reconquistar seus antigos territórios do Vice-Reinado do Prata, buscava minar os estados existentes na região para posteriormente anexá-los. Mas, com sua instabilidade política interna e guerras civis sangrentas em seu território, era impossível fazer muita coisa para influenciar os rumos da região. O que abriu portas para a reorganização de tais estados e para uma influência sutil do Brasil nesses países recém-independentes.

O Paraguai se encontrava desde sua independência isolado. Os portenhos consideravam o Paraguai uma província rebelde que se uniria às Províncias Unidas do Rio da Prata uma hora ou outra e, para apressar as coisas, trataram de impedir o acesso do Paraguai ao Rio da Prata, numa tentativa de asfixiá-lo. Porém, não contavam com a insistência do caudilho de origem luso-brasileira, Gaspar Francia, em manter a soberania do Paraguai.


Francia estreitou seus laços com o Brasil em uma tentativa de contornar o bloqueio imposto por Buenos Aires, fazendo do Brasil um aliado natural do Paraguai, tornando o Brasil a principal porta do Paraguai para o mundo.


Passado o período pós-independência e as sucessivas instabilidades dos estados nacionais da América Ibérica, as águas do Prata voltaram a ferver. Após o caudilho federal Juan Manuel de Rosas vencer os unitários na Argentina e unificar o país, a Argentina voltou ao jogo de influência no Rio da Prata, ajudando o caudilho uruguaio Manuel Oribe a tomar o poder no Uruguai e iniciando novamente um cerco ao Paraguai.

Carlos López, nessas circunstâncias, como seu antecessor, volta seus olhos para o Brasil em busca de apoio para manter a independência paraguaia e, posteriormente, apoia o exército brasileiro na campanha contra Rosas.


Esses fatos demonstram que o Paraguai era um aliado estratégico para o Brasil contra a Argentina e que seus interesses coincidiam.

Mas a vitória na Guerra do Prata muda completamente o cenário da região.

Inicialmente, a derrota da Argentina parecia um alívio às elites brasileiras, que, em sua torpe interpretação liberal, viam na queda de Rosas uma abertura daquele país à "civilização".

Não podemos deixar de ressaltar aqui como as elites brasileiras viam os hispânicos: tirânicos, anárquicos, selvagens, facínoras e inferiores.

E essa visão do Brasil como superior aos seus vizinhos resultou numa série de medidas que visavam manter seus vizinhos subjugados e não resolver questões de suma importância para a estabilidade da região, como bem ressalta Teixeira Mendes:

«[...] após “expulso Rosas”, “continuaram turvas as nossas relações com os estados vizinhos”, sobretudo devido às “questões de limites”, da “livre navegação dos rios” e das “vexações de que se diziam alvo os nossos compatriotas moradores da Banda Oriental”. As relações do Império chegaram a uma situação “bem tensa”, em 1854-5, com o Paraguai, conseguindo-se, “felizmente”, “um tratado de livre navegação” em 12 de fevereiro de 1858, “negociado por Silva Paranhos”. Entretanto, ficavam “todavia por liquidar-se a questão de limites” e persistiam as “desconfianças e as suscetibilidades das vaidades nacionais de ambos os países”.»

A Expedição de Paranhos (1854-1855), citada por Mendes, foi o ápice da prepotência brasileira em relação ao Paraguai antes da guerra. O Tratado de Montevidéu, imposto ao Uruguai, também não visava impedir qualquer ameaça futura ao império, mas humilhar aquela nação e transformá-la num Estado fantoche. Enquanto a Argentina mergulhava mais uma vez numa guerra civil.

Já o Paraguai, comandado por Carlos López, ponderou pela navegação livre no Rio da Prata, assinando o Tratado de Assunção em 1851 com o Uruguai. Esse tratado é mister para se entender por que o Paraguai interveio no Uruguai em 1864. Em suma, tal tratado propagava que os países signatários do acordo defenderiam-se mutuamente em caso de agressão externa. Fazia sentido para esses dois países pequenos defenderem-se dos seus dois grandes vizinhos que buscavam abocanhar a região.

O Paraguai de Carlos López conseguiu assim romper seu isolamento histórico e, pela primeira vez desde sua independência, buscar o mundo externo como uma das fontes para seu desenvolvimento.

• A Economia Paraguaia

O Paraguai, desde sua fundação, teve uma economia majoritariamente agrária. Não podemos cair em narrativas ufanistas paraguaias nesse quesito.

Mas não podemos desconsiderar que houve um ímpeto de Carlos López para tentar modernizar o país. A busca de técnicos europeus, o envio de emissários para a Europa, o aumento de efetivo e modernização do exército, a tentativa de se criar indústrias em Assunção, a construção de ferrovias estratégicas dentro do Paraguai e as políticas econômicas que poderíamos chamar hoje de "desenvolvimentistas" são fatos que não podemos ignorar.

O Paraguai angariava capital externo e o gerenciava internamente. Longe das narrativas propagadas por historiadores com tendências esquerdistas, o Paraguai não era uma autarquia, mas uma economia emergente comum que importava poucas coisas, mais por dificuldades do que por ausência de desejo, não muito diferente de outros países da América Ibérica. Com o diferencial de que o Paraguai conseguiu fazer o mínimo e crescer rapidamente em vários anos seguidos.

Quando Carlos López morreu em 1862, o Paraguai era um país relativamente estável e com uma economia crescente comparado aos seus vizinhos platinos, que trucidavam-se em conflitos internos ou estavam em estagnação crônica.

Solano López continuou as políticas de seu pai em todos os aspectos da máquina pública paraguaia.

• Solano López e o Paraguai


Longe dos sentimentalismos que o 'Mariscal' desperta em todo o continente, Solano López era um líder idealista que queria projetar o Paraguai ao mundo. Mas provavelmente não por um expansionismo que a narrativa argentino-brasileira acusa-o.

Muitos acusam o Paraguai de querer uma saída para o mar e, por isso, em tal narrativa, ele almejaria a guerra. Mas não levam em consideração que o Paraguai já possuía essa saída: o Porto de Montevidéu. Além de que Solano López teve a oportunidade de anexar várias províncias durante seu governo antes da guerra, como na sua tão falada participação na pacificação das províncias de Corrientes e Entre Ríos na Argentina, onde seria praticamente impossível para os bandos armados argentinos se contrapor a uma possível anexação. E mesmo assim não o fez.

Esses fatos demonstram que a política de Solano López no Prata era muito mais acauteladora do que se pensa, sendo muito mais a continuação da diplomacia de seu pai do que uma novidade da personalidade do caudilho.

Mas tudo isso mudou após a ascensão de Mitre, após a batalha de Pavón em 1861, e a intervenção do Brasil no Uruguai em 1864.

• Mitre e a Argentina


Podemos definir Bartolomeu Mitre como um caudilho tecnocrata liberal pró-inglês que estava disposto a utilizar os meios viáveis para unificar a Argentina e seus antigos territórios. E especificamente o Paraguai, país que tentou cercar, bloqueando a navegação no Rio da Prata após sua subida ao poder após a batalha de Pavón.

O Paraguai era visto como um reduto bárbaro e incivilizado no Prata por Mitre, em contraste com a "Moderna Argentina, aberta ao mundo e à Europa".

Sua preferência pelo estrangeiro e suas crenças 'progressistas' ficam muito claras ao analisarmos suas famosas falas proferidas em 23 de novembro de 1861:

"[...] A ação da Europa na República Argentina tem sido sempre protetora e civilizadora, e se alguma vez tivemos desentendimentos com alguns governos europeus, não sempre se pode dizer que os abusos dos poderes irregulares que surgiram de nossas revoluções não tenham sido a causa... Recebendo da Europa os capitais que nossa indústria requer, existindo um câmbio mútuo de produtos, pode-se dizer que a República está identificada com a Europa até o mais que é possível."

Mitre planejava expandir a 'civilidade' portenha aos outros países e foi isso que levou o mesmo a financiar e armar o caudilho colorado Flores contra o presidente Aguirre, no Uruguai.

• Aguirre e o Uruguai


Os governos uruguaios haviam sofrido uma interferência constante por parte dos brasileiros desde 1851. O Tratado de Montevidéu transformava o Uruguai em um fantoche informal brasileiro. E a contínua interferência brasileira em assuntos internos do Uruguai despertava insatisfação geral.

É nesse contexto em que os presidentes Bernardo Berro e Atanasio Aguirre tentam se livrar de tais acordos e reafirmar a soberania uruguaia com um processo de nacionalização da vida pública uruguaia. O que desagradou fazendeiros brasileiros, gerando conflitos entre as milícias governamentais e esses estancieiros.

Esses estancieiros descontentes uniram-se em torno de Venancio Flores e lançaram uma rebelião que culminaria na guerra civil uruguaia.

• Dom Pedro II e o Brasil


Após a guerra contra Rosas, Dom Pedro II via o Brasil como soberano no Prata. O Brasil unificado e estável, em comparação aos seus vizinhos, poderia dar as cartas e manter seus obtusos interesses naquela região.

Mas, apesar de o Brasil estar, em teoria, unificado, ainda havia medo nas cortes de uma fragmentação do império, especificamente na excêntrica região sul do país, onde estancieiros gaúchos permaneceram quase 10 anos independentes ao império.

Tais estancieiros gaúchos possuíam muitos negócios no Norte do Uruguai, onde sentiram-se ofendidos com a campanha patriótica empreendida pelos presidentes Berro e Aguirre.

E uniram-se em torno de Venâncio Flores. Inicialmente, os combates pendiam para Aguirre e o governo Blanco, apesar do financiamento recebido de Flores por Mitre e os estancieiros gaúchos.

É nesse contexto de fracasso inicial da expedição de Flores que se dá a intervenção brasileira no Uruguai em 1864. Houve muita gritaria por parte dos estancieiros gaúchos no Brasil, alardeando supostas atrocidades que o governo Blanco havia cometido contra brasileiros naquele país, o que gerou uma comoção nas cortes brasileiras, que temiam que tais estancieiros, frustrados com perdas econômicas no Uruguai, pudessem se voltar contra o governo brasileiro em uma nova República Riograndense.

E o Império invade o Uruguai em 1864 para salvar o caudilho Flores e defender seus supostos interesses naquela região.

• A posição paraguaia diante da intervenção brasileira no Uruguai


Solano López ofereceu a sua mediação ao governo imperial, para que ambas as partes no conflito conseguissem chegar a um acordo, visando a permanência do acesso do Paraguai ao estratégico Porto de Montevidéu. Rejeitada.

Essa rejeição da mediação paraguaia reacendeu em Solano López uma desconfiança em relação aos brasileiros. Já cercado ao sul pelo hostil governo de Mitre, que alardeava querer conquistar o Paraguai, Solano López encontrava seu estratégico aliado, o qual possuía um acordo formal de defesa mútua desde 1851, sendo atacado por uma potência que havia ameaçado o Paraguai em 1854 e ignorava suas tentativas de apaziguamento.

É nesse contexto que se inicia a operação paraguaia em território brasileiro.

• A guerra

A Guerra do Paraguai não inicia-se com a invasão do Paraguai ao Mato Grosso, como vermes com fezes no lugar do cérebro afirmam, mas no momento em que o Brasil intervém no Uruguai. Esse é um ponto de extrema importância para termos em mente.

Quando o Paraguai invade o Brasil, havia, naquele momento, uma disparidade entre exércitos formais e um cenário político e social muitíssimo divergente. O Paraguai possuía em torno de 80 mil/100 mil soldados. O Brasil possuía em torno de 20 mil/30 mil soldados. A Argentina possuía em torno de 15 mil/20 mil soldados. O Uruguai possuía em torno de 3 mil/5 mil soldados.

O exército paraguaio era moderno, disciplinado, centralizado e treinado na doutrina militar mais moderna da Europa e do mundo. Os exércitos argentino e uruguaio eram um conjunto de milícias mal treinadas e mal armadas, absolutamente destruídas pelos anos de guerras nesses países, comandados por caudilhos e chefes locais que aliavam-se a um caudilho ou outro. Já o exército brasileiro era ínfimo para o tamanho de seu território e composto por mercenários, jagunços e poucos soldados treinados.

O Paraguai era uma nação socialmente e politicamente estável, com um senso de nacionalidade reforçado pelo isolamento de anos. Enquanto Uruguai e Argentina eram países destruídos por anos de guerras incessantes e com faccionalismos graves em seus países. Já o Brasil possuía um histórico de revoltas e a chaga da escravidão em larga escala.

Esses fatores fizeram López crer que uma vitória seria possível, como parecia ser. Se não fosse um conjunto de nuances que ocasionaram uma reviravolta na guerra.

Inicialmente, em 1864, o Paraguai invade o Mato Grosso mais como forma de barganha do que por um objetivo estratégico real. Já em 1865, o Paraguai planejava invadir o Rio Grande do Sul para tentar sublevar essa província contra o Império e salvar os blancos no Uruguai. Para isso, fez uma solicitação ao hostil governo argentino para passar suas tropas por seu território, recebendo uma recusa.

O governo de Mitre, ao mesmo tempo em que se recusava a permitir que as tropas paraguaias passassem pelo seu território, dava carta branca para as tropas brasileiras utilizarem o mesmo. E essa foi a causa principal da invasão da Argentina por parte do Paraguai.

A Argentina, nos cálculos de López, era um inimigo fraco e fragmentado, já que havia rumores de tentativas dos federalistas de se oporem ao governo de Mitre nas províncias do interior.

Nos primeiros anos da guerra, o Paraguai realmente triunfava e, enquanto triunfava, tentava cessar as hostilidades, propondo, em 12 de setembro de 1866, em Yataity Corá, a paz. Porém, foi negado pelos países da Tríplice Aliança, já que um dos objetivos da guerra para tais países era "derrubar o ditador", e a mesma só poderia ter fim após a queda de López.

O Tratado da Tríplice Aliança marca o triunfo da mentalidade portenha, o liberalismo, encarnado caricaturamente nos dois principais países da aliança, que tentavam impor aos moldes de sua hipocrisia a "civilização" ao Paraguai. A mesma "civilização" que o Brasil, escravagista e governado por partidos oligárquicos que se revezavam infinitamente na política, e a Argentina, comandada por caudilhos degoladores, não conseguiam estabelecer nos seus próprios países.

Solano López, ao longo da guerra, tentou fazer vários tratados de paz com a Tríplice Aliança, sendo sumariamente negado por ela. Não só pelo ímpeto do sr. Dom Pedro II em tentar projetar-se como "imperador guerreiro", mas também por ideologia, por parte de Mitre.

E isso culminou na maior guerra fratricida do continente.

Com o Brasil saindo endividado e com contradições afloradas em seu tecido social, resultando numa estagnação crônica desse país.

Porém, em contraste com o Brasil, a Argentina liberal de Mitre venceu a guerra. Conseguiu eliminar seus inimigos políticos, unificou o país e angariou muitíssimos empréstimos mediados pelos brasileiros, além de ter contribuído infimamente com o esforço de guerra, enquanto os escravos brasileiros recrutados à força faziam todo o trabalho sujo. E, apesar de não conseguir anexar o Paraguai como queria, a Argentina conseguiu se erguer e se industrializar, ameaçando, inclusive, seu antigo aliado com rumores de guerra em 1880. Enquanto o Brasil se retraiu e entrou num período infame de sua história.

• A Guerra do Paraguai numa visão metapolítica


É impossível não associar o Paraguai lopizta aos arquétipos civilizacionais apresentados por Carl Schmitt de Behemoth e Leviatã.

"As civilizações telúricas ou terrestres são caracterizadas por uma série de itens ideológicos e sociológicos. Conservadorismo, holismo, antropologia coletiva e culto aos valores do ascetismo, da honra e da lealdade. São civilizações enraizadas na terra e nos valores da Tradição e da continuidade. Em contraste, os valores individualistas, universalistas e comerciais predominam nas civilizações talassocráticas ou marítimas. O oceano carece de fronteiras e o navegador perde facilmente suas raízes. Nos tempos antigos, a oposição entre Roma (a Terra) e Cartago (o Mar) é um bom exemplo dessa dualidade." - José Alsina Calvés

O Paraguai, telúrico, conservador, autocentrado, ascético, valoroso e honrado, poderia muito bem ser visto como o Behemoth sendo asfixiado pelos mercantis, individualistas e liberais leviatãs da Argentina e Brasil. O Paraguai encarnava na guerra a Nova Roma dos trópicos, enquanto as elites que conduziram Argentina e Brasil ao seu extermínio, Cartago. Desejosas por transformarem o Paraguai no chiqueiro mental que elas exaltavam.

Sem dúvida alguma, não há nada para se comemorar nessa guerra. Ela não foi uma afirmação da nacionalidade, como alguns propagam, mas prova da mancebice e imbecilidade de certas elites em conduzir políticas prestantes para seus determinados países. Cultuar a Guerra do Paraguai é uma sinalização de um quociente de inteligência atrofiado.

• Uma visão nacionalista da Guerra do Paraguai

Devemos cultuar nossos heróis, isso é natural, saudável e bom. Mas não podemos afundar nossas cabeças em um buraco dissonante da realidade por um ufanismo imbecil. Devemos estudar os fatos históricos para analisarmos melhor nossa realidade, não como forma de reacender paixões mortas ou justificar masturbações mentais.

Atualmente, o Brasil não possui inimigos no continente. Nem a Argentina, nem o Paraguai, nem o Uruguai. Nossos inimigos são estrangeiros. Que querem manter nosso continente eternamente subjugado. E a divisão dos países ibero-americanos é oportuna para eles.

Devemos deixar o passado no passado, superar o ressentimento e construir as bases da independência do nosso continente juntos. Para que, talvez, no futuro possamos ter o luxo de nos odiarmos novamente.

Tiradentes e A Atualidade da Questão Nacional - Aldo Rebelo

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